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Por que a ideia do "Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho" é perigosa?

(Por Demétrio Correia)

Falam sobre a supostamente futura condição do Brasil como "coração do mundo" e "pátria do Evangelho".

Falam mil maravilhas: mundo "mais cristão", humanidade "mais fraterna", "reino de paz" e "lições de vida para todo o planeta".

Falam que será a "era do entendimento", do "convívio harmonioso das diferenças", "da tolerância com o outro", do "auxílio permanente ao próximo" etc.

Tomemos muito cuidado com esse discurso. Lembremos do ditado popular: "é bom demais para ser verdade".

O projeto do "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" prevê que o Brasil comandará o mundo no âmbito político e religioso.

Muito cuidado com essa perspectiva. Ela é anunciada como se fossem flores brotando no jardim, mas é uma perspectiva muito perigosa e sombria.

E bem mais perigosa do que se pode admitir.

Já tivemos experiência semelhante com o Império Romano com o Catolicismo da Idade Média.

O enunciado era o mesmo: "paz, fraternidade, ensinamentos cristãos, amor ao próximo".

O problema é que a supremacia político-religiosa que está em jogo só é boa e generosa com quem está de acordo com tais crenças.

Para quem não está de acordo, serão dados abraços e carícias na cabeça?

Quanta ingenuidade! O que haverá são punições que nem imaginamos como vão ser, mas nos preparemos sempre para o pior.

O Catolicismo medieval, que se dizia baseado nos ensinamentos de Jesus, também falava em "acolhimento fraterno" dos discordantes, definidos como "hereges".

Mas o resultado prático foi esse: milhares de hereges queimados em praça pública, condenados, enforcados, decapitados.

Guerras "santas" sob o nome de cruzadas. Conversões de hereges marcadas por humilhações, que não eram menos cruéis que os interrogatórios, chamados de "inquisições".

Quem não imaginaria isso numa "pátria do Evangelho"? Em tempos de retrocessos sociais, devemos imaginar até a volta da forca como meio de punição de pessoas "incômodas".

Ninguém garante que não haverá novos Torquemadas sob as vestes do "espiritismo". Os "espíritas" demonstraram que são cruéis quando querem.

Até Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco demonstraram suas perversidades, através de seus juízos de valor.

Chico Xavier acusou os humildes (sim, humildes!!) frequentadores de um circo incendiado em Niterói de terem sido gauleses sanguinários, com base no "achismo" e ao arrepio da Ciência Espírita.

Também à revelia dos ensinamentos espíritas, Divaldo Franco acusou os refugiados do Oriente Médio de terem sido colonizadores sanguinários, usurpadores de tesouros e destruidores de povos.

Os juízos de valor usam de pretextos muito severos: "reajustes espirituais" e "resgates morais".

E ainda apelam para o "gado expiatório" através da duvidosa alegação de "resgates coletivos".

Fica ridículo: imagine, numa fila para comprar carne, o teto de um açougue desaba e mata um considerável número de pessoas, todas estranhas entre si.

Dizer que essas pessoas tiveram um único destino é bastante leviano, só porque morreram da mesma forma e num mesmo lugar e situação.

Esse juízo de valor pode ser a arma que os "espíritas" do futuro podem usar para punir hereges.

O discurso sempre nega práticas. Mas quem garante que a prática será proibida por palavras que apenas formalmente a renegam?

E o "espiritismo" brasileiro está cada vez mais sintonizado com as bases do Catolicismo jesuíta, que dominou o Brasil durante os primeiros séculos de existência como país e colônia de Portugal?

As ideias medievais são apreciadas sutilmente pelos "espíritas". Ninguém admite, mas eles professam a Teologia do Sofrimento, justamente a base ideológica do Catolicismo medieval.

Portanto, tomemos cuidado com nosso ufanismo apressado.

Ansiosos que muitos estão com a chance do Brasil exercer sua supremacia político-religiosa, acreditando no papo do "mundo mais irmão", esquecemos que essa falácia toda pode custar o sangue de milhões e milhões de inocentes.

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