"Espíritas" brasileiros não podem evocar Erasto

(Por Demétrio Correia)

O "movimento espírita" no Brasil fez suas escolhas.

Se baseou em Jean-Baptiste Roustaing para conceber seus postulados.

Criou uma base católica, fundamentada no legado jesuíta do Catolicismo português e medieval que vigorou durante séculos no Brasil-colônia.

Defendeu tanto seus princípios católicos que a obra de Allan Kardec só foi acolhida em traduções distorcidas, em que o texto original era alterado para um discurso mais aceitável para os católicos.

Famosa foi a tradução de Guillon Ribeiro, da Federação Espírita Brasileira (FEB), que trocou o "Sua doutrina", referente a Jesus, por "doutrina do Salvador", usando um jargão católico.

Outras traduções, como a de Salvador Gentile (da editora IDE), também distorcem Kardec, substituindo o pedagogo pelo sacerdote.

Foram tantas as catolicizações que ritos e dogmas foram criados como se fossem equivalentes "espíritas" de ritos e dogmas católicos.

A água benta católica virou "água fluidificada", um termo risível, pois "fluído" já é líquido.

O confessionário virou "auxílio fraterno". O pecado original virou "resgate espiritual".

O Paraíso católico virou "colônia espiritual", embora as fontes divirjam sobre tal concepção, pois uns a creditam como um Purgatório "espírita".

Mas o Inferno ganhou nome: é o "umbral".

Diante disso, também vieram jargões católicos que povoam o imaginário "espírita" brasileiro.

"Seara", "evangelização", "viajores", "caminheiros" são alguns dos jargões católicos aproveitados pelos "espíritas".

E que moral eles têm de falar de Erasto?

Erasto, discípulo de Paulo de Tarso, alertava sobre a deturpação da Doutrina Espírita.

Isso está registrado em O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, cuja tradução mais confiável é a de José Herculano Pires.

Ainda vamos falar muito de Erasto, mas o que se sabe é que ele nos preveniu de muitos aspectos deturpados que os "espíritas" defendem e praticam, em detrimento do legado kardeciano.

E como os "espíritas" deturpadores ainda têm moral para evocar Erasto?

"É mais válido recusar dez verdades do que aceitar uma única mentira", disse Erasto.

As mentiras trazidas pelos "médiuns" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco prevaleceram.

Chico Xavier e Divaldo Franco já começaram mal com uma caraterística que só é "própria" do "médium" no Brasil: o "culto à personalidade".

Nos tempos de Kardec, os verdadeiros médiuns não eram metidos a intelectuais, não ficavam fazendo pregações moralistas, eles apenas transmitiam as mensagens do além e acabou.

O próprio Erasto apareceu através de mensagens trazidas por um médium a serviço de Kardec.

O médium nem é conhecido, e nunca se atreveu a bancar o dublê de filósofo, por exemplo.

Só no Brasil é que existem aberrações desse tipo, que, queiram ou não queiram os deslumbrados, cheira a puro charlatanismo.

Daí que quem adora Chico Xavier e Divaldo Franco pode até continuar deslumbrado, sonhar com "colônias espirituais", achar que tem cãozinho fofinho no mundo espiritual e chá de açaí com preço mais amigo.

Ou então ver BRTs (aeróbus) circulando nas "cidades espirituais" a preço de "bônus-hora" - o "bilhete único" das "colônias espirituais", que não paga só transporte, mas também almoço, cinema, ginástica.

Só não pode evocar Erasto. Deturpação tem limites.

Se as pessoas querem ficar no "espiritismo" igrejista, que fiquem, rezem novenas, cantem hinos de louvor etc.

Mas daí a evocar Erasto e dizer que ele está com razão?

O "espiritismo" igrejeiro já representa tudo aquilo que Erasto repudia e que expressou isso nas mensagens trazidas no tempo de Kardec.

Portanto, pelo menos os "espíritas" igrejeiros devam ter um mínimo de sinceridade que eles não costumam ter.

Admitir, pelo menos, que Erasto lhes soa "chato" e "desagradável".

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