A contradição de quem diz "estudar" Allan Kardec e praticar o igrejismo

(Por Demétrio Correia)

Ser igrejeiro e mesmo assim se gabar de "ser fiel" a Allan Kardec é uma mania que os "dúbios" não conseguem perder.

Eles querem, num momento, citar conceitos igrejeiros, falar em fé, evocar espíritos de padres e trazer abordagens quase tão católicas quanto os conceitos do próprio Catolicismo.

Às vezes até se empolgam e querem ser mais católicos que os católicos. 

Noutro momento, porém, falam "com orgulho" do instinto investigativo de Allan Kardec, de seu compromisso lógico, de seu método científico de análise.

E logo bajulam Erasto, gostando daquela frase em que o espírito deste afirmou que era válido recusar dez verdades do que aceitar uma única mentira.

Mas aí exaltam Erasto e, no momento seguinte, vão glorificar os recados "fraternos" de Emmanuel e a "figura humana" do anti-médium Francisco Cândido Xavier.

Não se decidem entre um momento e outro. Transitam entre dois terrenos antagônicos achando que ser bonzinho é a ligação de tamanhas contradições.

Não há como aceitar ao mesmo tempo Chico Xavier e Allan Kardec e tal impossibilidade não se dá por questão de intolerância.

É por questão de conflito de ideias, que traz incoerência.

O ideólogo "espírita" não admite isso, ele se acha "coerente" com suas incoerências.

Proclamado "possuidor da verdade", o palestrante "espírita" estufa o peito, apesar da aparente "humildade", e exige "coerência" na "conduta espírita".

Ele se acha detentor de "coerência de conduta", acha que está numa posição "equilibrada".

Confunde contradição com equilíbrio, diz uma coisa e diz outra diferente, achando que o bom-mocismo pode juntar ideias opostas.

Num momento, é o "racional empolgado" que acha que, com seu conhecimento livresco, com traduções igrejeiras das obras de Kardec na mão, detém o "mais perfeito aprendizado" do Espiritismo.

Noutro momento, é o "igrejeiro apaixonado", que exalta os deturpadores da Doutrina Espírita já prontificados em usar o aparato de "bondade" e "fraternidade" para se promoverem.

A desculpa, neste caso, são os "bons sentimentos", a suposta elevação moral.

É um cacoete comum ser contraditório no Brasil.

Geralmente se pega uma causa nova e se deturpa com bases velhas.

Um edifício novo construído sobre andaimes velhos.

Num momento, se aproxima de valores retrógrados, no outro tenta emular valores novos.

Cai em contradição o tempo todo e usa uma desculpa para ligar ideias opostas, num falso equilíbrio.

Já tivemos emissoras FM que se diziam "de rock" e tinham mentalidade pop.

Em certos momentos, as gracinhas dos locutores e os programas de besteirol, além de canções de hit-parade comuns, fazem a rádio parecer ser mais pop.

Mas aí a rádio encana de patrocinar eventos de heavy metal e fazer parceria com eventos de skate, surfe e outros de natureza mais roqueira e tenta parecer mais rock.

Ou a personalidade que se diz de esquerda e tem ideias de direita.

Em muitos momentos, essa pessoa se torna reacionária com tantas abordagens direitistas nas redes sociais.

Em outros, a bajulação "sincera" a Lula, Dilma Rousseff e até a finados como Marisa Letícia, Che Guevara, Marighella e Fidel Castro.

Por que essa mania de contradição, tão comum no nosso Brasil?

Isso vem de pessoas que não querem largar tradições conservadoras, não raro bastante radicais, mas que, em nome das conveniências, pegam carona em algum fenômeno de vanguarda.

Querem se apegar a valores velhos, porém se protegerem sobre o verniz da novidade, como um pirata de um antigo navio pirata em naufrágio, que portanto migra para o navio do inimigo.

Há tantos piratas que embarcam no navio inimigo e se passam pelo grupo rival, em troca de vantagens.

Ou gente que quer ficar em dois terrenos opostos, para tentar sobreviver sobre qualquer um deles.

Isso não traz coerência, e não adianta arrancar um motivo para "equilibrar" ideias antagônicas.

Não existe meio-termo para ideias que se chocam.

O que existe são os efeitos danosos da colisão.

Combinar igrejismo e cientificismo no pretenso Espiritismo não traz equilíbrio, mas problemas. E muitos.

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