Por que não é possível o igrejismo "espírita" decidir "aprender" Kardec?

(Por Demétrio Correia)

O "espiritismo" brasileiro não tem autocrítica.

Tenta parecer uma doutrina que se move ao sabor do vento.

No começo da FEB, a obra de Jean-Baptiste Roustaing estabeleceu preferência em relação aos postulados de Allan Kardec.

Havia até um discurso "conciliador", unindo Kardec a Gabriel Delanne, Leon Denis e Roustaing, sendo Gabriel e Leon não necessariamente rigorosos seguidores do legado kardeciano.

Até uma das mais antigas pseudo-psicografias foi feita, atribuída a um Allan Kardec inseguro, que falava como padre e não como o pedagogo francês e pedia para conhecermos e valorizarmos "a revelação da revelação".

"Revelação da Revelação" é um subtítulo de Os Quatro Evangelhos, de J. B. Roustaing.

O roustanguismo prevaleceu até os primeiros anos de Francisco Cândido Xavier, por volta dos anos 1940.

O roustanguismo quis substituir a coerência lógica de Kardec com as fantasias místicas e mitológicas do Catolicismo medieval, junto com preconceitos moralistas retrógrados.

Chico Xavier era roustanguista, embora um tanto envergonhado, até anos depois do julgamento do caso Humberto de Campos, ocorrido em 1944.

O "médium" adaptou ideias de Roustaing em seus livros, para que assim os ideais roustanguistas permanecessem intatos quando o advogado de Bordéus, de tão polêmico, for renegado.

A crise do roustanguismo, no Brasil, se deu menos pelas aberrantes hipóteses de "criptógamos carnudos", na "regressão reencarnacional" de humanos em formas animais, vegetais ou de outra natureza.

Também se deu menos pelo mito surreal do "Jesus fluídico" quando Jesus, reduzido a um "fantasma", não poderia ter sofrido as dores humanas do calvário.

A crise do roustanguismo no Brasil foi a crise da cúpula da FEB.

Desentendimentos entre os dirigentes da FEB e as federações regionais e o escândalo de um membro da cúpula denunciar que Chico Xavier foi plagiado por Divaldo Franco.

Aí, pronto. Os regionalistas forjaram mensagens atribuídas ao dr. Bezerra de Menezes "trocando Roustaing por Kardec", com direito à corruptela kardequizar/catequizar e sabe-se da História.

O "movimento espírita" brasileiro supostamente isolou Roustaing nos gabinetes do alto clero.

E fingiu querer recuperar as bases doutrinárias originais, tanto que veio o tendencioso rótulo "kardecista".

Finge-se gostar até de Erasto, mas se pratica igrejismo e se cultua o medieval Emmanuel.

Daí que não é possível os ídolos do igrejismo "espírita" falarem em "aprender melhor" a obra de Kardec.

Como no caso de Divaldo Franco. Adianta ele ter prometido "estudar mais a fundo" a obra do professor lionês?

É como todo oportunista e arrivista querendo levar vantagem.

Vide muito cantor de "pagode brega" ou "sertanejo brega" querendo gravar canções de MPB.

Quem não sabe e tira vantagem deturpando as coisas sempre tem a pretensão de querer ser "genial".

Promete que irá aprender tudo, ouvir as sugestões, fazer tudo direitinho.

Não cumpre sequer metade das promessas. Faz que está fazendo, quer se vincular aos supostos mestres, mas tudo fica nisso mesmo.

É cacoete no Brasil a canastrice sofrer arroubos de pretensa genialidade, de promessas de mudança de atitude, reinvenção de trajetória etc, que nunca se cumprem.

Mas fazem apenas forçar o vínculo do canastrão ou charlatão a uma causa mais nobre que ele finge entender mas não entende.

Infelizmente, os ideólogos do "espiritismo" brasileiro são canastrões em relação à apreciação da obra de Kardec, e charlatões na "mediunidade" de faz-de-conta.

A prática diz isso, não é opinião de quem odeia os "espíritas".

Sabe-se que eles, no fundo, sempre preferiram Roustaing, por ser mais religioso, mais emocionante e mais sonhador.

Mas Roustaing ganhou repercussão negativa e foi descartado. Como Eduardo Cunha na vida política, ou, mais recentemente, Eike Batista como símbolo de empreendedorismo.

Por isso a fingida identificação com Allan Kardec.

"Aprender melhor" Kardec não faz eliminar as irregularidades cometidas pelo "movimento espírita".

Decorebas de artigos e artigos de O Livro dos Médiuns não garante que a "mediunidade" de faz-de-conta, ou "mentiunidade", deixe de ser feita.

Boa teoria não necessariamente pode dar em boa prática.

E é esse o problema de esperar que os igrejistas "espíritas" entendam melhor a obra kardeciana.

Podem até ler as traduções de José Herculano Pires. Tudo será em vão.

Afinal, eles demonstram a preferência por temas igrejeiros, herança inegável do legado de Roustaing.

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