A queixosa e os resmungões do "espiritismo"

(Por Demétrio Correia)

Existe um conto de Francisco Cândido Xavier, atribuído ao espírito de Humberto de Campos, publicado no livro Reportagens de Além-Túmulo, de 1943.

Ele se chama A Queixosa. e conta a vida de uma senhora chamada Benvinda Fragoso, que se "rodeava" de supostas oportunidades benditas, mas "não soube aproveitá-las".

Por isso, ela se dava a reclamar da vida. Queixava-se de ser "capacho do Destino" e, de tanto reclamar, afastava amigos e colaboradores do seu convívio.

O conto parece de uma moral contundente, mas exige uma interpretação invertida à que o texto apresenta.

Dentro do contexto da deturpação espírita, o conto, que com muita certeza não teria sido escrito pelo espírito de Humberto de Campos, revela-se não um conselho moral, mas muito antes um impiedoso juízo de valor.

E logo trazido por Chico Xavier, que sempre dizia para "não julgar quem quer que fosse". E ele sempre foi o primeiro a julgar os outros, em seus livros, e estimular seus semelhantes do "movimento espírita" a fazerem o mesmo.

Afinal, que "oportunidades benditas" se considera, dentro de uma ideologia chiquista que é movida por contradições?

É trabalhar numa empresa corrupta, com patrão cafajeste, e "contribuir" para inserir nela "lições de fraternidade cristã"?

É se desposar com algum cônjuge de personalidade fútil, para ensinar a ele os "profundos ensinamentos do amor"?

Em muitos casos, isso é mostrar a luz para quem não quer ver, e mesmo quando decida vê-la um dia, não será desprovida de muitas tensões e conflitos.

O "espiritismo", que não vê a individualidade humana, acha que o espírito humano é um espectro qualquer que enfrenta uma série de experiências de vida, como um vaso vazio em que se enfia um monte de coisa, depois trocada por outro conteúdo.

Acredita na quimera de que, usando o punho para dar murros em ponta de faca, possa entortar ou talvez até amolecer essa ponta e tornar a faca inofensiva.

Ah, quanto se cobrará aos "espíritas" por seu juízo de valor, se julgando saber mais do que o sofredor sobre o que este realmente deseja e precisa na vida.

E quem acha que, nas "casas espíritas", seus membros, inclusive os que se acham "bastante evoluídos", não existem queixosos, se enganam.

Aqueles que não suportam as queixas dos outros é que são muito mais queixosos.

Aliás, mais do que queixosos: são resmungões.

Chico Xavier deixou escapar seu lado resmungão.

Quando, em suas irregulares "psicografias", ele se passava pelo espírito de Jair Presente, engenheiro morto em 1974 aos 25 anos no interior de São Paulo, os amigos do falecido desconfiaram.

De seis mensagens divulgadas, a primeira seguia o estilo igrejista e "sereno" de Chico Xavier, mas as demais pareciam um alucinado vocabulário de gírias em frases tensas.

Na primeira mensagem, havia um pseudo-Jair Presente repetindo o igrejismo de Chico Xavier, dentro daquele mershandising religioso das supostas psicografias.

Nas demais, parecia uma paródia de um hippie dopado de ácido lisérgico, uma sátira neurótica de um psicótico recém-saído de "viagens" alucinógenas e que falava gíria o tempo todo.

Os amigos reclamavam e Chico Xavier veio com uma "pérola" nos bastidores.

Reclamou dos amigos que diziam que "esse Jair Presente não tem jeito, não" e chamou as queixas dos jovens de "bobagem da grossa".

Aproveitou essa mesma queixa para uma mensagem posterior do pseudo-Jair.

O episódio mostrou o lado resmungão de Chico Xavier, como o seu juízo de valor sobre quem foram as humildes vítimas da tragédia do incêndio em um circo de Niterói mostrou este lado sombrio.

O Chico Xavier que pedia para ninguém reclamar e reclamava além da conta.

Não é por acaso que o personagem Eustácio, do seriado de animação Coragem, o Cão Covarde, é sósia de Chico Xavier.

E o Chico Xavier que pedia para ninguém julgar quem quer que fosse, fazia, e muito, juízos de valor não raro injustos e cruéis.

Por ato semelhante, outro "médium" já foi processado por danos morais.

Por sorte de Chico Xavier, as pobres famílias não tinham condições de mover um advogado para processar o "médium" pelos mesmos danos.

O que mostra uma lição que é amarga para os "espíritas".

É a aplicação do ditado: "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço".

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