Um poema igrejeiro e com métrica irregular do falso Olavo Bilac

(Por Demétrio Correia)

Os que sonham em ver Parnaso de Além-Túmulo ser considerada obra autêntica da espiritualidade podem se preparar para a decepção.

Não é difícil identificar irregularidades severas de estilo, pastiches literários que, repetimos, foi feita por Chico Xavier, mas com a ajuda de inúmeros colaboradores.

Vamos mostrar aqui as obras que apresentam irregularidades, comparando com as obras originais, para que assim possamos atestar, de maneira objetiva, os pontos duvidosos.

Com medo de serem decepcionados, os partidários de Chico Xavier tentam vários rodeios.

Uns, malandramente, usam teses acadêmicas alegando que "não dá" para ver irregularidade nas supostas obras espirituais de Chico Xavier pela simples análise textual, mas pelo entendimento do que é mediunidade e vida espiritual.

Só que eles recusam a fazer estudos sérios para tal entendimento, se contentando com a "mentiunidade" (mediunidade de faz-de-conta) e com as fantasias fabulosas das "colônias espirituais", feitas à maneira dos condomínios de anúncios de classificados.

Ou seja, recusam a aceitar uma lâmpada mais simples em prol de uma iluminação mais complexa que eles dizem desejar mas se contentam com as trevas que garantem suas crenças fantasiosas.

Vamos comparar dois poemas de Olavo Bilac, que o crítico João Dornas Filho já alertou sobre a farsa.

"Olavo Bilac, um homem que no estágio de imperfeição nunca assinou um verso imperfeito, depois de morto ditou a Chico Xavier sonetos inteirinhos abaixo dos medíocres", disse Dornas, em indignada ironia.

Escolhemos um poema que se aproxima da agenda religiosa muito caraterística das supostas psicografias lançadas pelo anti-médium mineiro.

É o poema "Criação", do livro Poesias, lançado em 1888.

Para confrontar, escolhemos o suposto poema espiritual "Jesus e Barrabás", da suposta antologia espiritual de 1932.

Pelo forte acento igrejeiro, mais caraterístico do pensamento pessoal de Chico Xavier, ele já mostra uma grave estranheza aos conhecedores de literatura de língua portuguesa.

Não bastasse isso, nota-se o descuido métrico, que impede uma recitação em ritmo musical, latente mas presente no Parnasianismo, elemento mais forte, depois, no Simbolismo.

Primeiro mostraremos o poema original de Olavo Bilac, e depois o pseudo-Olavo Bilac igrejeiro trazido por Chico Xavier.

Criação

Por Olavo Bilac - Livro Poesias

Há no amor um momento de grandeza,
que é de inconsciência e de êxtase bendito:
os dois corpos são toda a Natureza,
as duas almas são todo o Infinito.

Um mistério de força e de surpresa!
Estala o coração da terra, aflito;
rasgá-se em luz fecunda a esfera acesa,
e de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes;
cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
e a Gênese fulgura em cada abraço;

porque, entre as duas bocas soluçantes,
rola todo o Universo, em harmonias
e em glorificações, enchendo o espaço!

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Jesus ou Barrabás?

Por Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo - Atribuído ao espírito Olavo Bilac

Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado.
A multidão inteira, ansiosa se congrega,
Surda à lição do amor, implacável e cega,
Para a consumação dos festins do pecado.

“Crucificai-o!” – exclama... Um lamento lhe chega
Da Terra que soluça e do Céu desprezado.
“Jesus ou Barrabás?” – pergunta, inquire o brado
Da justiça sem Deus, que trêmula se entrega.

Jesus! Jesus!... Jesus!... – e a resposta perpassa
Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça,
Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema...

E debaixo do apodo e ensangüentada a face,
Toma da cruz da dor para que a dor ficasse
Como a glória da vida e a vitória suprema.

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