Um poema que, sem dúvida, o espírito de Auta de Souza não escreveu

(Por Demétrio Correia)

Há um sério problema naqueles que veem autenticidade nas supostas obras literárias trazidas por Francisco Cândido Xavier.

Com leitura apressada ou mesmo uma primeira leitura de desguste, eles se impressionam com semelhanças e se esquecem de uma única diferença comprometedora.

É como se experimentassem uma gelatina de framboesa e afirmarem, de forma taxativa, que adoraram a gelatina de morango que experimentaram.

O livro Parnaso de Além-Túmulo é uma teia de irregularidades, as quais poucos puderam destrinchar. 

A polêmica simplória criou um maniqueísmo na qual Chico Xavier se sairia bem em qualquer uma delas.

Numa hipótese, ele era o porta-voz dos mais requintados artistas do mundo espiritual.

Noutra hipótese, ele era o sofisticado pastichador dos mais diversos estilos e expressões literários.

Esquecem que o livro foi, na verdade, uma obra coletiva, mas de gente da Terra, mesmo.

O próprio Chico Xavier escreveu cartas pedindo ajuda aos editores da FEB.

E isso foi divulgado não por um furioso católico desmoralizador de "espíritas", mas de uma "médium" seguidora de Chico, Suely Caldas Schubert.

Se o "crime" foi revelado ingenuamente por um comparsa, então não há como dizer que o denunciado foi vítima de linchamento.

O "fogo amigo" de Suely revelou o que católicos furiosos não seriam capazes de fazer.

Portanto, Parnaso de Além-Túmulo é um livro de pastiches, porque só essa constatação para explicar os graves problemas de aspectos pessoais identificados em obras supostamente mediúnicas.

E que o livro foi, portanto, obra feita por muitas pessoas na Terra, como editores da FEB e consultores literários a seu serviço.

Um exemplo desses problemas de estilos pessoais está no poema que aqui reproduziremos, "A Prece", atribuído ao espírito de Auta de Souza (1876-1901).

A menina tinha um estilo personalíssimo, escrevendo com uma meiguice tipicamente feminina, com um lirismo muito sensível e não raro triste.

Esse estilo delicado simplesmente desaparece nas obras ditas espirituais.

Note-se um forte odor masculino de Chico Xavier nas obras "mediúnicas" atribuídas à jovem poetisa potiguar.

Para confrontar os dois estilos, usamos como comparação um poema original de Auta que apresenta uma temática próxima a "A Prece".

As diferenças de estilo são gritantes. Não nos iludamos com a beleza dos versos do "poema espiritual".

O poema "mediúnico" apresenta fortemente o estilo pessoal de Chico Xavier e isso deveria ser constatado justamente pelos seus defensores mais aprofundados.

Quem acompanhou pessoalmente Chico Xavier sabe o estilo das preces que ele orava.

O poema "A Prece" é justamente o estilo de oração que Chico Xavier fazia quando participava de doutrinárias nas "casas espíritas".

Portanto, isso se mostra explícito na comparação textual abaixo, ao qual cabe leitura atenta e desprovida de paixões religiosas.

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ORAÇÃO DA NOITE

Auta de Souza - 03 de abril de 1899

Ajoelhada, ó meu Deus, e as duas mãos unidas, 
Olhos fitos na Cruz, imploro a tua graça... 
Esconde-me, Jesus! da treva que esvoaça 
Na tristeza e no horror das noites mal dormidas, 

Maria! Virgem mãe das almas compungidas, 
Sorriso no prazer, conforto na desgraça... 
Recolhe essa oração que nos meus lábios passa 
Em palavras de fé no teu amor ungidas. 

Anjo de minha guarda, ó doce companheiro! 
Tu que levas do berço ao porto derradeiro 
O lúrido batel de meu sonhar sem fim,  

Dá-me o sono que traz o bálsamo ao tormento, 
Afoga o coração no mar do esquecimento... 
Abre as asas, meu anjo, e estende-as sobre mim. 

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PRECE

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo - Atribuído ao espírito de Auta de Souza

Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.

Derramai vossa Luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;

Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

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