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A falta de concentração é uma tradição até no "contato" com os mortos

(Por Demétrio Correia)

Um sério problema, tipicamente brasileiro, praticamente anula a chamada atividade mediúnica no país.

É o da falta de concentração das pessoas.

As pessoas não têm concentração para ler livros nem para ouvir música.

Leem como se digerissem às pressas uma porção de palavras, sem saber rigorosamente do que elas realmente querem dizer.

Ouvem músicas às pressas, sem avaliar a verdadeira natureza dos sons ouvidos.

É muito comum as pessoas se queixarem de falta de concentração, de não terem "saco" para fazer determinadas coisas, porque falta "aquele preparo" para tudo isso.

E isso envolve também a paranormalidade, ou a chamada "mediunidade".

(Obs.: termo "mediunidade" só é aceito quando da divulgação de mensagens resultantes do contato de um vivo com o espírito de um morto; o simples contato encarnado-desencarnado não é mediunidade, mas paranormalidade).

Quase ninguém tem a concentração necessária para entrar em contato com um espírito do além-túmulo.

Nem Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco tinham com frequência. Eles se limitaram apenas a contatar espíritos de "mentores" ou alguns entes queridos.

Mesmo assim, não tinham concentração para realmente entrar em contato com tantas e tantas ilustres personalidades a que se atribui terem se comunicado.

Isso tanto é verdade que as mensagens "mediúnicas" sempre contam com um apelo igrejeiro.

Esse truque mostra um grande inconveniente: as mensagens "espirituais" soam falsas e apresentam problemas sérios de identidade com aspectos pessoais dos falecidos alegados.

Não é a semelhança que atesta veracidade, mas a ausência de aspectos que contradizem qualquer natureza pessoal do morto em questão.

Infelizmente, quase toda mensagem "mediúnica" traz algum aspecto que contradiz essa natureza pessoal.

Pode haver mil semelhanças. Se uma pequenina diferença contradiz, derruba tudo e a veracidade é anulada.

No livro JK: Caminhos do Brasil, do "médium" Woyne Figner Sacchetin, de São José do Rio Preto (SP), o texto lembra o discurso e a linguagem de Juscelino Kubitschek.

No entanto, na famosa pergunta de um farmacêutico ao então candidato à Presidência da República, sobre a construção de Brasília, o "Juscelino" do livro disse: "respondi sem hesitar".

A tradição diz que Juscelino ficou pensativo durante poucos segundos antes de responder a pergunta do farmacêutico, durante um comício improvisado em Jataí, Goiás, em 1955.

Isso derrubou o "Kubitschek" de Woyne Figner Sacchetin, que parecia ter enganado direitinho.

Mais tarde, o próprio Woyne foi processado por familiares das vítimas de um acidente com avião da TAM, ofendidos pela acusação infundada de terem sido "romanos sanguinários" em "vidas passadas".

Essa acusação, sem provas, teve caso similar com o próprio Chico Xavier, que acusou as vítimas de um incêndio num circo em Niterói de também terem sido, em "outras vidas", "romanos sanguinários".

Woyne usou o nome de Alberto Santos Dumont, e Chico, o de Irmão X, codinome que mal disfarçava a usurpação indébita do nome de Humberto de Campos.

Dois ilustres cidadãos, Santos Dumont e Humberto de Campos, que nunca entraram em contato com os "médiuns".

Não há concentração de verdade para isso.

As pessoas imaginam que a ação em salas fechadas das "casas espíritas" é "transparente".

De repente o cara produz uma mensagem fictícia e atribui a autoria a um morto de sua escolha.

Não se comunica com o morto, que está bem distante da Terra, e no entanto usa o nome dele para lançar uma mensagem apócrifa.

E ver que isso consegue enganar até os familiares de um morto, a ponto da atriz Márcia Brito, mãe do falecido Ryan Brito, cometer uma gafe no Facebook, é assustador.

Ela usou a carteirada religiosa para atribuir "honestidade" na "comunicação mediúnica" de um "médium" carioca.

Em outras palavras: ela usou a "filantropia" para justificar a "honestidade mediúnica", mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Outro dado a considerar é que Márcia nem deve ouvir falar do Controle Universal do Ensino dos Espíritos, que recomenda recorrer a diferentes médiuns, sem relação direta ou indireta entre si, para enviar a mensagem de um falecido.

Muitos de nós, infelizmente, ignoramos as recomendações de Allan Kardec para tomarmos cuidado com supostas mensagens espirituais.

Depois essas mesmas pessoas vão dizer que seguem "respeito rigoroso" aos postulados kardecianos, e ainda choramingam quando questionados.

O "trabalho do bem" da sopa aos pobres ou da oferta de donativos não tem a ver com mediunidade.

Justificar uma coisa com outra não vale, porque isso não garante veracidade nem honestidade alguma.

E num país confuso como o Brasil, a falta de concentração de pessoas que seguem o ritmo frenético do padrão de vida dominante do país também impede o contato com os mortos.

E, diante de tantas fraudes e irregularidades observadas nas mensagens ditas mediúnicas, os mortos é que também não querem se comunicar através de "médiuns" brasileiros.

Afinal, se comunicar por esses "médiuns" para quê? Para tudo se reduzir a uma propaganda religiosa?

O Brasil segue incomunicável com o povo do além-túmulo.

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