A espetacularização nas "reuniões mediúnicas"

(Por Demétrio Correia)

É inútil o "espiritismo" brasileiro dizer que é rigorosamente fiel aos postulados espíritas originais.

Sua prática é abertamente contrária, em muitos aspectos, aos ensinamentos do Espiritismo original.

A abordagem igrejeira, que se escancara em "casas espíritas" e está solta nos textos de artigos e romances "espíritas", é tão explícita que não há como ignorar a traição aos ensinamentos e recomendações de Allan Kardec.

De 1975 para cá, os "espíritas" brasileiros, mesmo os mais igrejistas, até tentam expor a teoria correta do pedagogo francês.

Mas tudo isso se confina numa letra "desencarnada", sem serventia prática, apesar de tantos e tantos apelos palavreadores de "vamos não só ler e entender Kardec, mas vivê-lo no dia a dia".

Tudo isso dado num apelo emocional, mas não é apelando por um "Kardec total" que se obterá o reconhecimento entre os espíritas autênticos.

Há muita distorção e muita corrupção no "espiritismo" brasileiro.

As pessoas deixam passar porque elas mesmas tiveram educação católica e por isso não estranham em ver o Espiritismo ser tão catolicizado no Brasil.

Nem chegam a ter ideia quando certos deturpadores mais oportunistas, querendo se destacar sobre seus pares, fingem condenar a deturpação da Doutrina Espírita.

São pessoas que falam contra a "vaticanização do Espiritismo", pedem "um único Espiritismo, o de Kardec", mas eles mesmos apoiam essa vaticanização.

Parece até jogo de cena, feito diante de um público indiferente.

Esse público só quer coisas pragmáticas: alguma exposição temática, similar ao sermão católico, mais agradável do que esclarecedora, e "serviços" como a concessão de passes e água fluidificada.

Há muita desinformação que legitima a deturpação do Espiritismo e garante a essa religião a blindagem mais absoluta.

Ninguém desconfia sequer dos espetáculos das "reuniões mediúnicas", públicas ou privadas, tão cheias de irregularidades.

Nas reuniões públicas, o clima mais parece de orgia religiosa, o que faz tais reuniões terem um clima vibratório bastante pesado, por conta das emotividades extremas e... catolicizadas.

Nas reuniões privadas, há, constantemente, práticas irregulares, pela falta de concentração dos "médiuns" e pela necessidade de usar as "psicografias" para fazer propaganda religiosa.

Nas públicas, o "médium" vira o centro das atenções e o espetáculo sensacionalista de produzir mensagens "espirituais" diante do público se equipara, em leviandade, aos espetáculos das tábuas Ouija das "mesas girantes" na França.

Ou seja, algo que vai na contramão do que Kardec observava.

No tempo do Codificador, a diversão sobrenatural das "mesas girantes" virava objeto de estudo que permitiu questionamentos que contribuíram para a teoria da mediunidade.

Já através de Francisco Cândido Xavier, é o trabalho mediúnico que é distorcido e rebaixado a um espetáculo comparável com o entretenimento sobrenatural das "mesas girantes".

Com o agravante de que as "psicografias" eram fake. Até as assinaturas dos "mortos" eram diferentes das que eles haviam deixado quando vivos.

E isso quando não era o Chico Xavier que usava sua própria caligrafia como "assinatura do morto".

Tais atividades revelavam um entretenimento mórbido que, em verdade, constrangia os espíritos evocados, que nunca iriam se envolver num ambiente de vibrações tão pesadas.

Quem vinha eram os espíritos mistificadores, brincalhões e traiçoeiros, que adoram esse recreio de morbidez religiosa, obsessão doentia pelos mortos e promoção ostensiva do "médium" de ocasião.

Já nas privadas, a "mediunidade" se dá como num serviço "às escuras" do público, um trabalho à revelia em que os "médiuns" podem fazer o que quiserem.

Em muitos casos, a "leitura fria", que é a busca de informações explícitas ou implícitas por diversas fontes, da imprensa ao gesto humano, tempera as "informações" a serem usadas na "psicografia".

Se o parente do morto escreveu no formulário seu endereço, telefone e CPF, até isso pode ser aproveitado.

Daí que a mãe do falecido jovem Ryan Brito, a atriz Márcia Brito (a Flora Própolis da Escolinha do Professor Raimundo, nos anos 90) foi vítima de pegadinha quando o "morto" citou o número do celular e da identidade da mãe.

Ela se esqueceu que, quando recorreu ao "auxílio fraterno", forneceu tais informações.

Ela foi tomada pelo espetáculo que tais "sessões mediúnicas" representam.

E esse espetáculo destoa do que realmente representou a mediunidade codificada por Allan Kardec, ao questionar o entretenimento das "mesas girantes" à luz de uma grande pesquisa teórica.

O Brasil ainda precisa questionar a espetacularização de muitas atividades. Para não perder a noção da realidade.

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