"Espiritismo" e o mito perigoso do "inimigo de si mesmo"

(Por Demétrio Correia)

Desgraçado aquele que faz apologia ao sofrimento alheio, porque nunca sofreu.

Quantos palestrantes religiosos, apoiados, nem sempre de maneira assumida, à Teologia do Sofrimento, falam tanto em prol do sofrimento humano.

Acham que o sofrimento extremo, a coleção de desgraças e a perda do controle individual do próprio destino só produzirão pessoas altivas e felizes.

Se esquecem que tais infortúnios pesados também podem produzir tiranos, suicidas, pessoas traiçoeiras, bandidos, corruptos.

Que perigo falar em "inimigo de si mesmo", um discurso maligno que é servido sob a calda de mel dos palestrantes religiosos, em especial os "espíritas".

Uma ideia servida como uma fruta de mancenilheira, de sabor bem doce, mas de cruel efeito venenoso.

Os "espíritas" acabam se contradizendo com esse papo de "inimigo de si mesmo".

A sua doutrina igrejeira tanto reprova o suicídio, a ponto de haver todo um clima de horror diante do modismo da Baleia Azul, mas se esquecem de ver o próprio lado.

Sim, a Baleia Azul é um grave argueiro nos olhos dos outros. O idealizador desse jogo maligno falou até mesmo em "limpar a sociedade", de maneira francamente fascista.

Mas os "espíritas" têm uma trave terrível nos seus olhos, que lhes cega ardentemente.

Condenam o suicídio, mas fazendo apologia ao sofrimento humano e à ideia de "inimigo de si mesmo", acabam defendendo os atos suicidas, sim.

Isso porque os suicidas não se matam por diversão, eles se matam por dificuldades que se julgam incapazes de enfrentar.

Se os "espíritas" afirmam que tem que aguentar o sofrimento, mesmo ao ponto extremo da agonia, eles acabam defendendo a manutenção das condições que levam qualquer um ao suicídio.

Se os "espíritas" falam em "inimigo de si mesmo", que moral eles têm para falar em "desenvolver o amor próprio, a autoestima"?

O sofredor já se aflige demais com as desgraças e, ao saber que ele é "seu pior inimigo", ele então tem mais chances de dar fim à sua vida.

Afinal, ele precisa destruir o inimigo, que é ele mesmo.

E se ele terá consequências drásticas com o suicídio, para ele não importa. 

O sofredor extremo com desejos suicidas se acha preso no sofrimento, portanto não se importa se ele sofrerá na Terra ou no mundo espiritual.

O discurso de "inimigo de si mesmo" foi um grande "tiro no pé" no "espiritismo" brasileiro.

É um discurso que nada contribui para a evolução do ser humano. Só faz o sofredor se angustiar cada vez mais.

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