O médium autêntico e o anti-médium

(Por Demétrio Correia)

Uma estória fictícia pode ilustrar bem a diferença do médium autêntico, como os que serviram ao pedagogo Allan Kardec, e o "médium" brasileiro, figurão muito badalado pelo "espiritismo" que é feito no Brasil.

Consta-se que Monsieur A..., falecido no último quartel do século XIX, tenha decidido ficar na Terra no plano espiritual, verificando os rumos da humanidade ao longo das décadas.

Ele decidiu não reencarnar por enquanto, por escolha própria, embora isso fosse tempo demais para ele esperar tanto. Mesmo assim, Monsieur A..., um aristocrata francês que havia feito serviços mediúnicos no século XIX, decidiu assumir tal experiência.

Chega-se ao Século XX e ele então chega ao Brasil. É a década de 1980 e já são uns 90 e tantos anos que Mousieur A... deixou a vida material. Sob o convite de um amigo, ele resolveu verificar o que é a atividade dos que se dizem "médiuns" no Brasil, já que o amigo lhe foi informado que o francês havia sido um.

Ele estranhou os lugares que os "médiuns" se expressam. Casas bastante lotadas, com filas de gente esperando lá fora, e um cartaz imenso na mídia, com os "médiuns" sendo também alvo de muita devoção, como se fossem santos vivos.

Monsieur A... sentiu uma enorme estranheza. Ele perguntou ao amigo, o Senhor H....

- Por que tanto espalhafato? No meu tempo, eu fazia trabalhos com poucas pessoas ao redor, de maneira discreta e sem alarde...

- Amigo. - disse o Senhor H.... - É que o "médium" se destaca como atividade de filantropo e de pensador espírita. Preste atenção em sua palestra. É de um orador que se define como um dos mais fiéis seguidores de Allan Kardec do mundo, nos últimos anos.

Senhor H... e Monsieur A... decidem então ouvir a palestra do "médium" brasileiro. Apesar dos aplausos emocionados e de vários espectadores chorando de comoção, Monsieur A... saiu completamente decepcionado.

- Sei que é um "médium" um tanto vaidoso, mas as palestras dele são agradáveis - disse o Senhor H....

- Não achei. Considero de uma pieguice absoluta. Já ouvi sermões de padres muito mais belos e singelos, quando vivi em Paris. - respondeu Monsieur A....

- Mas temos que convir que as mensagens são boas, sobre "paz e fraternidade". Aqui está o histórico do "médium". Ele se destaca pela qualidade.

Monsieur A... resolve ler com atenção o histórico do "médium". Franziu o cenho, e ao encerrar a leitura obteve um olhar contrariado.

- Olha, são apenas doações de mantimentos, projetos educacionais pouco eficazes e outras medidas paliativas, que não "curam" a "doença" da pobreza e antes apenas "aliviasse a dor" por poucos dias.

- O que você vê de estranho em "médiuns" como ele?

- Muita coisa.

- Mas eles são pessoas humildes! Todos falam da humildade dessas pessoas.

- Não creio. Eles me soam extravagantes. Parecem dotados de muita pose, forjam falsa sabedoria, eu mesmo não entendi muita coisa do que ele falou. Aquela coisa dos tempos futuros, ele não soube dizer que a humanidade progrediu ou enfrenta retrocessos ainda persistentes.

- Mas a humildade está ali, no semblante. O discurso suave, a mansuetude...

- Não. Deixe eu explicar. Eu fui de uma família nobre no Sul da França e resolvi viver minha vida como um advogado de Paris, herdeiro da fortuna de meu pai. Mas nem por isso quis me ostentar no meu trabalho paranormal, eu nunca quis ter cartaz com isso, só queria servir.

- Mas você deve reconhecer que os "médiuns" brasileiros são humildes...

- Não, isso é jogo de cena. Vejo neles uma vaidade de estrelas. Eles vivem pelos aplausos, como se celebridades fossem. É triste saber que eu, mais rico do que eles na minha antiga encarnação, eu lhes superava em humildade...

- Você viu as mensagens "espirituais" que eles publicaram? Veja esta mensagem, atribuída a Antônio Carlos Jobim, um poema sobre "fraternidade"...

Monsieur A... havia ouvido falar, no mundo espiritual, de Tom Jobim, e havia buscado informações sobre ele, de terceiros. Ele leu o texto e permaneceu cético.

- Não me parece um texto de Jobim e nem mesmo se permite passar tal obra como um poema de Vinícius de Moraes.

- O que há de errado nela? As mensagens falam em amor, Natureza, paz...

- Ela me soa um poema católico, diferente do que se falou de obras como "Águas de Março". Nem sei se foi realmente um poema espiritual, o estilo é tão raso que creio ser criação pessoal do próprio "médium".

- E o que você vê no desempenho dos "médiuns" brasileiros de mandarem recados do além?

- Acho muito falso e ostensivo. Eu tinha a responsabilidade de transmitir a mensagem que eu recebia de um morto e deixar ele se comunicar pelo que fosse. Meu compromisso é ter concentração para me liberar para receber um espírito.

- E aí?

- Aí é que eu só era o intermediário. Não queria o reconhecimento. Queria apenas servir e voltar para casa, para minha mulher e minhas filhas. 

Monsieur A... conclui, acrescentando:

- O "médium" brasileiro quer os holofotes e a santificação. Eles mais parecem anti-médiuns do que médiuns, por não quererem ser os intermediários, mas os centros das atenções. Isso é muito triste.

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