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Folhetim igrejista

(Por Demétrio Correia)

Uma senhora tem por passatempo escrever um romance de ficção.

De educação conservadora, a senhora tem como lembranças as obras literárias que lia na infância, as radionovelas que ouvia e as idas à casa do vizinho para ver as primeiras novelas da TV.

Delas obtivera o conteúdo moralista dos dramalhões que escrevia em sua pequena máquina Remington.

Funcionária pública e esposa de um professor de escola pública, ela tinha seu estoque de folhas em tamanho A4, como conhecemos hoje, para datilografar seus breves capítulos, dia a dia.

Num belo dia, a senhora encerra seu romance, sobre intrigas amorosas e sofrimento humano, e é estimulada por seu marido a ir a uma editora. Ele a acompanha para lhe dar aval, mas ela é que toma toda a iniciativa.

- Meu amigo! - disse a senhora ao editor de plantão.

- Sim, minha cara! É muito prazer receber a senhora e o senhor, seu marido?...

- Sim, isso mesmo. - respondeu a senhora.

- É muito prazer. Meu nome é... - disse o marido da senhora, se apresentando.

- Pois bem, esses são os originais que a senhora me entregou?

- São as fotocópias do livro original, creio que em boa qualidade.

- Ah, sim, pelo visto, são de boa qualidade, sim. Dá para ler e revisar. - disse o editor, folheando as páginas.

- E como é que o senhor vai avaliar isso? - perguntou a senhora.

- Bom, a senhora foi indicação de um amigo meu, e aí vou ver se dá para publicar. A resposta dou na próxima semana.

Passada uma semana, a senhora e seu marido foram para a editora e foram falar com o funcionário. Mas, desta vez, outro funcionário estava, porque o editor da outra ocasião teve um compromisso e teve que sair do trabalho para voltar só perto do fim do expediente.

- Aqui está o recado do (nome do editor da ocasião anterior). Ele disse que o livro é bem escrito, mas o enredo não dá para vender. Ele é muito fraco para virar um sucesso de vendas, tem um monte desses romances que já venderam desde o século XIX, não há como fazer mais do mesmo. Me desculpem.

- Tudo bem, agradecemos a disposição dele. - disse a senhora, calmamente. - Eu tentei, fiz o possível, entendo os critérios da editora. Não sou do tipo que se revolta com isso, sei que vocês precisam se sustentar.

- É o nosso trabalho, minha senhora. Você vê quantos livros que a gente lança e são bombardeados pela crítica literária. E sabe como isso pode pesar na imagem de nossa editora.

- Tudo bem. Vamos indo. Boa sorte e um bom trabalho para vocês. - se despediu a senhora.

De volta para casa, a senhora teve uma ideia. Resolveu reescrever o romance, embora mantendo todo o tom melodramático e seu moralismo conservador. Ela apenas adaptou certas passagens, inserindo na trama elementos de outro romance que ela tentou escrever.

Este outro romance era um dramalhão ambientado no século XIX, e ela fez os paralelos entre os personagens dos dois romances e viu semelhanças muito grandes.

Resolveu, então, atribuir os personagens paralelos a supostas encarnações passadas.

Emendando os dois enredos, formatou um novo romance e ela decidiu usar um pseudônimo de origem greco-romana, que atribuiu como um suposto espírito.

Foi procurar uma editora "espírita" com as cópias dos novos originais e solicitou ao editor a publicação.

Uma semana depois, a solicitação foi atendida. O romance ruim se tornou um "romance espírita" sem mudar essencialmente seu conteúdo.

A senhora, além de ser reconhecida entre os amigos, passou a ser conhecida como "médium espírita".

Alguns meios literários menores passaram a cortejá-la e ela passou a fazer palestras sobre família e moral. E a pregar uma forma igrejificada e moralista de Espiritismo, nas "casas espíritas" de todo o país.

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