A crise da hierarquia

(Por Demétrio Correia)

O Brasil vive uma grave crise de hierarquia.

Os piores escândalos, as maiores confusões, as gafes mais constrangedoras e até alguns dos crimes mais chocantes são cometidos por pessoas dotadas de algum prestígio ou aparente superioridade social.

O governo de Michel Temer, que personificava qualidades associadas a estereótipos de moderação política, competência técnica, poder administrativo e disciplina econômica, é um exemplo disso.

Com a lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sendo divulgada, muitos dos "administradores competentes da coisa pública" começam a ter sua imagem desgastada.

Aécio Neves, José Serra, Rodrigo Maia, Eliseu Padilha e Aloysio Nunes.

Todos antes envoltos numa mitologia de aparente competência, operatividade e objetividade.

O próprio presidente Michel Temer, a exemplo do ex-titular do cargo, Fernando Henrique Cardoso, também estão vinculados a essa "superioridade" de supostas habilidades técnicas aliadas à moderação e à objetividade.

E isso não se limita somente ao âmbito político.

Na mídia, vemos os "admiráveis" donos da Rede Globo de Televisão, os irmãos Marinho, sonegando impostos, acumulando fortunas exorbitantes e usurpando até o dinheiro público arrecadado dos impostos dos pobres cidadãos.

As pessoas ficam felizes, sintonizam a Rede Globo até nos seus piores programas, acreditando que os afortunados irmãos são "empresários competentes" e oferecem "o que há de melhor em Comunicação, Cultura e Serviço".

A hierarquia também se estende no Judiciário e no Ministério Público.

A confusa figura de Sérgio Moro, juiz da Operação Lava Jato, a suspeita figura de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, a do também ministro do STF Gilmar Mendes, são ilustrativas.

Eles se apoiam numa mítica de disciplina, austeridade, objetividade, sob uma roupagem de legalidade que, no fundo, é usada de maneira tendenciosa e falha.

Nos casos mais rasteiros, o mito de "moralidade" se associa a pessoas como Jair Bolsonaro.

Na religião, o caso mais gritante, por incrível que pareça, não está na Igreja Católica ou nos mais diversos movimentos protestantes.

Está no "espiritismo", que prometia uma adaptação brasileira dos ensinamentos de Allan Kardec e, em vez disso, ofereceu tão somente um Catolicismo medieval informal, mas dotado de paranormalidade.

Sua validade foi muito menos, e muitíssimo menos, pelo suposto trabalho do bem que tanto alardeia, do que pelos estereótipos de religiosidade e moralismo que há muito dominam a sociedade.

Isso garante a blindagem absoluta dos deturpadores do legado de Allan Kardec, que podem "fazer das suas" que ainda são santificados.

Para tudo ficar completo, só faltava Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco terem se filiado ao PSDB.

Mas não precisa. Ser "espírita", à maneira da doutrina deturpadora brasileira, já garante o acesso ao Paraíso até falsificando quadros ou criando mensagens apócrifas.

Chico Xavier e Divaldo Franco já são endeusados, como se já tivessem sido canonizados pelo Vaticano, por causa de tantos estereótipos apegados como grude no inconsciente coletivo.

Chico Xavier foi endeusado pelo padrão hierárquico de um padre sem batina, símbolo de virtudes tidas como "superiores" pela paixão religiosa que inebria muitas pessoas.

Ele personificou aqueles clichês de "humildade", "amor" e "misericórdia" que correspondem a uma mística do velho Catolicismo beato, que ainda predomina no nosso país, marcadamente conservador.

Divaldo Franco, então, parece uma figura do começo do século XX.

Um orador verborrágico, à maneira dos pretensos catedráticos, com a ornamentação das palavras, com o jeito pomposo dos velhos professores do ensino hierarquizado dos anos 1940.

Surpreende que, nas redes sociais, haja gente tida como "moderna" e "futurista" idolatrando uma figura retrógrada como Divaldo Franco.

Ou então um Chico Xavier, que parece nunca ter saído da República Velha, como um caipira que ainda tinha saudades do Segundo Império.

Hoje a hierarquia está em crise e atinge esse "espiritismo" marcado por uma postura dúbia, um igrejismo muito mal disfarçado pela atitude hipócrita de fingir fidelidade a Allan Kardec.

As pessoas ficam assustadas e acham que essa crise é uma tempestade que vai desaparecer para depois tudo voltar como estava antes.

Não dá. E mesmo os críticos da deturpação espírita, que reprovam a deturpação, se sentem tentados a poupar os deturpadores, por causa dos estereótipos de "amor e bondade".

As pessoas nem sabem explicar coisa alguma sobre a idolatria aos "médiuns" que promovem culto à personalidade e deturpam a Doutrina Espírita com ideias igrejistas medievais.

Dizem que é "pelo trabalho do bem", "porque ajudam muita gente", sem trazer dados precisos, bases científicas nem informações consistentes.

Aliás, se a gente pesquisa, usando bases teóricas e consistentes, verá que os dois "médiuns" ajudaram muito, muito pouco.

O conjunto do "espiritismo" brasileiro quase nada fez de caridade, e não foi por falta de recursos ou oportunidades, mas porque serviu mais para fazer propaganda do benfeitor do que promoção do benefício.

As pessoas até tentam defender o título de "maior filantropo do país" a Divaldo Franco, assustadas ao ver o fiasco da denominação - sua "triunfante" Mansão do Caminho não chegou a ajudar 0,1% da população brasileira - , e só se preocupam em proteger o "benfeitor".

Esquecem que fazem isso movido por paixões religiosas e por velhos padrões de hierarquia motivados pelo prestígio religioso.

E é isso que fez a deturpação espírita crescer assustadoramente no Brasil.

É como se Jean-Baptiste Roustaing, o primeiro igrejeiro que deturpou Kardec, tivesse arrumado as malas e se mudado para o Brasil.

A crise das hierarquias desafia os brasileiros a abrir mão das velhas cegueiras e descartar os velhos "heróis" que perdem o sentido no Brasil complexo de hoje.

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