Quando os pais exigem demais dos filhos

(Por Demétrio Correia)

Quantas ilusões vivem aqueles que obtiveram um alto status social.

O acúmulo de dinheiro, de admiradores, de visibilidade, de diplomas, de títulos, de poder.

Mas também o acúmulo de anos biológicos, e o acúmulo de glórias do prestígio religioso.

Ah, quanto estar no alto da montanha só garante a miopia do que existe abaixo!...

Quanta infantilidade, quanta imaturidade está em medir a sabedoria pela perda da cor dos cabelos.

É certo que se questionam a preciosidade de diplomas, do gozo da fama e da visibilidade, do poder político e empresarial, da riqueza financeira.

Mas não questionam o prestígio religioso, tentação das piores e das mais malignas.

Ou da ilusão da maturidade biológica, que cria uma enganosa sensação de sabedoria de muitos pais.

Os pais muitas vezes vivem a ilusão da hierarquia terrena, do mero amadurecer material da pele enrugada, dos cabelos grisalhos ou brancos, do mero acúmulo cronológico de vivências.

Quando, em muitas famílias, os pais exigem demais dos filhos, nem sempre são demonstrações de sabedoria ou de prudência.

Em muitos casos, é apenas um capricho dos pais quererem que os filhos passem a viver experiências que foram frustradas na juventude de seus genitores.

Os filhos passam a ser veículos da vontade e dos desejos fracassados de seus pais.

Em muitos casos, pais veem televisão demais, contraem também suas próprias ilusões.

É o pai que pensa que o filho é super-herói e exige que ele "meta a cara" até depois de esgotarem as forças.

É a mãe que pensa que o filho só serve para obedecer e aceitar qualquer parada na vida.

Os pais vivem na ilusão de que os filhos, quanto mais obedientes, mais emancipados serão.

Como se, vivendo com avestruz, só de baixar a cabeça, resignado com as "imposições da vida", pudessem se tornar mais humanos.

Ah, quantas ilusões não sabem os pais viverem.

A obsolescência de muitos valores patriarcais, muitos conceitos moralistas, mais voltados para a castração do que para a emancipação do ser humano!

O acúmulo de anos que ignora o quanto tanta coisa mudou, e os pais ignoram sua impotência em entender as mudanças dos tempos.

Presos à televisão, cujas emissoras transmitem valores reacionários e apelam para interesses comerciais, os pais pensam estarem a par do que entendem como "realidade imparcial e moderada".

Querem que seus filhos sejam herdeiros de ilusões fracassadas dos pais.

Querem que seus filhos lutem acima de suas capacidades e, de preferência, aceitando até mesmo ciladas para vencer na vida, como trabalhar em empresas corruptas.

Impõem pares para a vida amorosa dos filhos, apenas por um mero critério moralista-religioso.

Quantas ilusões existem adormecidas sob as rugas e os cabelos brancos.

Quantas fantasias camufladas pelo discurso do "realismo pleno".

Daí entender o que o cantor Renato Russo, em "Pais e Filhos", queria dizer com os versos:

"Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você / O que você vai ser quando você crescer?".

A realidade é muito complexa para se apoiar num mero acúmulo cronológico da vida.

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