A catolicização do Espiritismo no Brasil

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(Por Demétrio Correia)

O "espiritismo" brasileiro nunca passou de uma mera Igreja dos Espíritos.

Um sub-Catolicismo informal, uma "Igreja Católica" para quem procurava uma religião mas tinha vergonha de ser "católico praticante".

Ou um "Catolicismo dos idosos", em que as pessoas de idade são dispensadas da aeróbica do senta-e-levanta das missas católicas.

O "espiritismo" brasileiro é o retrato do país hipócrita, dissimulador e retrógrado em que vivemos.

Foi o "novo" - no caso, a Doutrina Espírita - que foi desfigurado em prol de conceitos igrejeiros tradicionais que não se desejava fossem rompidos.

E a catolicização do Espiritismo avançou de tal maneira que o que se viu não foi mais a adaptação à realidade brasileira do legado deixado pelo professor Allan Kardec.

O que se viu foi a repaginação do Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia, tão medieval que abraçou até a Teologia do Sofrimento que não era unanimidade dentro da Igreja Católica.

O "espiritismo" brasileiro reduziu-se apenas a uma religião que parece ter sido formada sob o acordo do Catolicismo medieval com os movimentos feiticeiros e ocultistas da Idade Média.

Um Catolicismo Apostólico Romano que apenas incluía Tábua Ouija, bola de cristal, simpatias.

Muitos conceitos do "espiritismo" brasileiro foram adotados ao arrepio dos postulados de Kardec.

Os mais graves são a apologia ao sofrimento humano e, para justificá-lo, a concepção, um tanto materialista, do mundo espiritual.

Tudo sem qualquer estudo sério sobre o que é mesmo a vida espiritual.

O complexo de superioridade dos "espíritas", aliada à alta reputação dos supostos "médiuns" com seu "culto à personalidade", ainda piora a conduta dos próprios seguidores da doutrina igrejista brasileira.

Descontando a "fachada", quando os "espíritas" são excessivamente "amorosos" com a gente leiga, a falam tanto em "coisas lindas", mostram imagens de corações vermelhinhos e fofos e crianças sorridentes e igualmente fofas, o buraco é mais embaixo.

Os "espíritas", na verdade, se mostram insensíveis, arrogantes, ambiciosos e teimosos nos bastidores. E, acima de tudo, hipócritas.

Insensíveis, porque, em vez de ajudar o sofredor, o aconselha a aguentar os sofrimentos, sob a desculpa de contrair bênçãos logo adiante.

Arrogantes, porque fazem tudo o que é possível para ficar com a palavra final, porque só os "espíritas" se acham a personificação do Bom Senso, mesmo sem praticá-lo em um por cento.

Ambiciosos, porque diante do espetáculo de belas palavras, querem receber prêmios, medalhas, títulos e condecorações, tributos ao tal "trabalho de amor e humildade".

E ainda querem alcançar o Céu. Estabelecem previamente quem é que irá recebê-los no retorno à "pátria espiritual".

O coitado de Jesus de Nazaré tem que se arrumar todo tempo para receber um "espírita" e levar um "médium", no fundo um grande "mala", para o colo de Deus Pai.

Teimosos, porque não abrem mão do igrejismo, fingindo "querer entender melhor Kardec" sem no entanto deixar os vícios contraídos quando assumiam gostar de J. B. Roustaing.

E hipócritas, porque abraçam as ideias roustanguistas mas juram de pés juntos "fidelidade absoluta a Kardec".

A catolicização do Espiritismo transforma a doutrina, na forma como é feita no Brasil, numa espécie de Catolicismo de borracharia.

Até a canonização de seus ídolos religiosos é feita sem cerimônia, bastando apenas uma declaração e o esforço para que esta ganhe apoio unânime.

Desta forma, "médiuns" como Francisco Cândido Xavier ou mesmo os ainda vivos Divaldo Franco e João de Deus já são considerados "santos".

É apenas uma questão de dizer. Sem reunião do sacerdócio, sem rituais, sem inventário, sem milagres e, portanto, sem anúncio de milagres.

Tudo é feito apenas pelo "dizer", bastando apenas que esse discurso seja multiplicado e respaldado por uma boa parcela da população.

O "espiritismo" brasileiro, desta forma, é apenas um Catolicismo à paisana, porém mais malandro do que informal.

É uma catolicização hipócrita e dissimulada, porque se autoproclama "fiel a Kardec".

Mentira. As ideias são todas de J. B. Roustaing, o que vem de cientificismo e Doutrina Espírita é apenas pela via da bajulação e do pedantismo.

Afinal, no conjunto da obra, o "espiritismo" brasileiro é apenas a repaginação do Catolicismo medieval, acrescido da concessão à práticas feiticeiras, ocultistas ou místico-homeopáticas.

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