Ninguém se suicida por diversão

(Por Demétrio Correia)

Existe um jogo muito perigoso, chamado Jogo da Baleia Azul.

Nela, a pessoa é induzida a realizar 50 tarefas, sendo a última a de tirar sua própria vida.

O fenômeno atraiu grande adesão de internautas, nesse contexto doentio das redes sociais.

Mas revela também que a situação não é tão simples do que se pode imaginar.

Muitos supõem que basta censurar a Internet ou impor mais religião para evitar os suicídios nas redes sociais devido ao jogo.

Aliás, as redes sociais são as mais radicalmente religiosas entre os ambientes sociais em geral.

Fundamentalistas religiosos de várias seitas, igrejeiros fanáticos de todo tipo, idolatrias a personalidades religiosas, tudo isso ocorre aos montes nas redes sociais e nada aconteceu de progresso.

Muito pelo contrário: em "nome de Deus", se roga o prejuízo do próximo. E sob o mesmo pretexto já se defendeu a queda da presidenta Dilma Rousseff, substituída pelo governo retrógrado de Michel Temer.

As redes sociais têm um monte de vídeos exaltando religiosos. No "espiritismo" brasileiro, vemos os casos de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.

Nunca Chico Xavier e Divaldo Franco foram tão idolatrados, com certo grau de fanatismo, pelos internautas nas redes sociais. Quanta bobagem glorificadora é publicada no YouTube, quantos memes, no Facebook!

E o "espiritismo" tenta ser simplório na sua análise sobre o suicídio e cai em contradição.

Pois o "espiritismo" trata o suicídio como "crime hediondo", enquanto considera o homicídio um "crime culposo", supostamente movido por "reajustes espirituais".

Quanto ao suicídio, o "espiritismo" se contradiz porque apela o tempo todo para o sofredor suportar desgraças, impasses, encrencas e empecilhos de dificílima solução.

Condena o suicídio mas apela para a pessoa aguentar justamente as razões de muitos suicídios.

Ninguém se suicida por diversão, apesar do aparente recreio do Jogo da Baleia Azul.

Pelo contrário, o suicídio aparece porque existe um vazio de perspectivas.

Esse vazio de perspectivas também não vem do nada, ele é motivado pela incapacidade de lidar com dificuldades pesadas e quase insuperáveis.

O sofrimento em excesso causa distúrbios, as dificuldades acima dos limites também.

Quantas almas são esmagadas pela coleção de desgraças e pela overdose de adversidades que frequentemente geram traumas, depressão e rancor!

O "espiritismo" que pede para a pessoa aguentar tudo, até humilhação e ameaça de morte, não tem cacife para sair reprovando o suicídio.

Isso porque o "espiritismo" prefere defender a causa que leva ao efeito que diz reprovar.

De que adianta condenar o suicídio, sem condenar as condições que levam a esse ato tão extremo?

A mera "criminalização" do suicídio é até um legado roustanguista, para desespero dos roustanguistas enrustidos do "nosso espiritismo", que tanto se alegam "rigorosamente fiéis a Allan Kardec".

O problema não é criminalizar o suicídio, o problema é identificar e combater os fatores que potencialmente levariam as pessoas a tirarem suas vidas.

Infelizmente poucos conseguem ver a individualidade do outro.

É fácil dizer que fulano tem que viver uma vida qualquer nota e aceitar tudo que as circunstâncias e as conveniências da vida lhe impõem.

Mas nem todos são iguais e nem toda situação é agradável a todos.

Há pessoas que se frustram de maneira estranha, talvez nem tão estranha assim, mas incompreendida pela sociedade em geral.

É isso que o "espiritismo" ignora, afundado no seu igrejismo moralista.

Daí que anos e anos cultuando muito Chico Xavier, Divaldo Franco, Madre Teresa de Calcutá e outros igrejeiros não contribuiu para melhorar a sociedade.

Antes fossem meros entretenimentos de fé igrejeira. Não menos supérfluos do que estranhos jogos de Internet.

Em ambos, há a fuga da realidade, diante de problemas que não se conseguem resolver.

São apenas válvulas de escape da ilusão por coisas "divinas" ou "diabólicas".

E quantos não são os suicidas que surgem sob a sombra das belas palavras "espíritas"?

Quantos apelos para "amar o sofrimento", "vencer a si mesmo" e tudo o mais fazem pessoas irem mais rápido para o "50° item" do Jogo da Baleia Azul, talvez sem encarar os outros 49 itens?

A metáfora de "vamos carregar a cruz" também não é um Jogo da Baleia Azul sob o verniz da fé religiosa?

Ninguém se suicida por diversão. Mas também a própria sociedade que condena o suicídio oferece condições para que tantas pessoas se matem. Vale rever esse moralismo podre que insiste em permanecer de pé.

Comentários