A ilusão dos mais velhos de que o mundo "se concluiu" com eles

(Por Demétrio Correia)

É muito complicado explicar o mundo para um idoso.

Iludido por um simples acúmulo de anos de vida, o idoso acha que o mundo está "feito".

O idoso não admite que o mundo tenha que ser mudado e até as "imperfeições" que as pessoas mais velhas admitem haver são mais toleradas do que combatidas.

Mas o mais difícil é questionar um idoso, que sempre reage motivado pela fragilidade física.

As pessoas mais novas, em certos casos, se tornam reféns dos mais velhos, por terem que se sujeitar aos valores mais conservadores para ao menos manter os idosos vivos.

No Brasil, sempre se negociou a assimilação de valores novos aos interesses dos mais antigos.

"Não, essa novidade é ousada demais. Elimine este e aquele ponto e ponha aquele que é do meu agrado", diz o mais antigo, querendo lapidar o "novo" de tal forma que a novidade se elimina em sua essência.

É por isso que, no caso do rock brasileiro, por exemplo, procurou-se assimilar mais as diluições comportadas da cena italiana do que as ousadias sonoras do cenário britânico.

Criou-se a Jovem Guarda como um cenário de rock muito simpático, jovial e divertido, mas nada que assustasse os mais velhos, que viam nessa cena uma "brincadeira saudável de criança".

A Jovem Guarda estava mais próxima de tendências comportadas aqui e ali, de olho mais no Eurovision do que na Beatlemania, e, quando começou a assimilar a influência psicodélica, foi tarde demais.

Isso é só um exemplo de como o Brasil compactua com o "velho" para assimilar o "novo".

Não somos um país de idosos, mas um país em que ideias velhas têm sempre que prevalecer, dissolvidas em aparentes novidades.

As redes sociais da Internet estão tomadas de pessoas medievais que, com pinta de surfistas, skatistas, rastafáris, hipsters, com cabelo pintado de azul e falando palavrão, defendem até a intervenção militar no Brasil.

Somos um Brasil em que pessoas de personalidade mais arrojada tendem a morrer mais cedo ou no auge de suas tarefas sociais.

Nosso maior pesquisador cultural, o poeta Mário de Andrade, não chegou a completar 52 anos de idade.

Pessoas diferenciadas como Leila Diniz, Renato Russo, Cazuza, Glauber Rocha e Noel Rosa morreram prematuramente.

Outros, que chegaram à marca dos 60 anos, como José Wilker e Kid Vinil, morreram ainda com muitos planos de vida pela frente.

O Brasil nunca resolveu seu ultraconservadorismo e parece ainda padecer do trauma de ter deixado de ser colônia.

Daí a prevalência de visões antigas, nas quais as gerações mais velhas sempre têm que fazer todos crerem que o mundo parou na geração deles, e que tudo o que temos que fazer é apenas "aperfeiçoar" o velho mundo em que eles acreditam.

E isso, ironica e contraditoriamente, faz derrubar tradições verdadeiras, porque o conservadorismo extremo acaba preservando desigualdades sociais e injustiças duras, porque o sistema moralista e patrimonialista acaba sendo um sistema de preservação de privilégios e restrições.

O moralismo familiar faz dos filhos reféns dos desejos frustrados dos pais.

O moralismo religioso tenta submeter a Ciência, a lógica e o bom senso ao jugo da fé mistificadora.

O cenário político tem que se deixar valer de medidas que prejudiquem as classes trabalhadoras e façam o Brasil ceder suas próprias riquezas a estrangeiros.

O mercado de trabalho quer empregar apenas galãs e humoristas, com medo de que talentos inovadores mexam nas estruturas hierarquicas das companhias.

Mas há também os arrivistas, gente retrógrada que precisa de pessoas inovadoras, não por tais qualidades, mas para serem trampolins para os ambiciosos da canastrice humana.

É a mulher-objeto do "funk" que precisa de um rapaz "meigo e caseiro" para ela se sobressair na projeção conjugal, sobrepondo sua imagem feminina à do "homem indefeso".

É o empresário corrupto e incompetente que precisa de pessoas com talento para dar a falsa impressão de competência e idealismo, fazendo também com que o empresário canastrão possa também ter uma falsa imagem de "generoso".

São forças velhas, mulheres que servem o velho machismo e empresários retrógrados que precisam se promover com "novidades" e um suposto idealismo social.

O Brasil não consegue lidar com o velho e é um mundo extremamente complicado.

Os mais idosos imaginam o Brasil um país "perfeito" desde que sigam os desígnios moralistas, religiosos e pragmáticos que tais gerações almejam.

Reclamam da bagunça dos últimos tempos, menos em prol de novas soluções, mais em favor de velhos procedimentos.

Daí que muitos pedem a ditadura militar como forma de resolver o caos político atual, sem saber dos malefícios que duas décadas de arbítrio fardado trouxeram para os brasileiros.

Até o legado de Allan Kardec tornou-se vítima desse pretensiosismo, e o Espiritismo, no Brasil, negociou tanto com os velhos paradigmas religiosos, que hoje se reduziu a uma forma repaginada do velho Catolicismo jesuíta do período colonial.

Ou seja, não temos mais Espiritismo. Temos, sim, um outro Catolicismo, estruturalmente mais modesto, porém ideologicamente mais conservador.

Ficamos sempre negociando as velhas forças sociais para implantarmos novidades, e deixamos um Brasil digerindo muito mal novas ideias e conceitos inovadores.

Em muitos casos, as tendências novas só são inteiramente assimiladas quando, de tão banalizadas, já se tornam manjadas e até um tanto desgastadas.

É como se, no Brasil, liberássemos a mercadoria na alfândega depois que expirou o prazo de validade.

E nunca saímos disso, reféns que somos de velhas gerações ultraconservadoras, para as quais o mundo que hoje perece precisa ser preservado, mesmo que seja na marra.

E se a gente explicar que o mundo que os idosos acreditam está perdendo o sentido, eles ainda se indignam e sofrem até problemas de saúde.

Este é um grave problema de um Brasil doente de tantos velhos paradigmas.

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