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Quando críticos da deturpação espírita não sabem o que fazer com Chico Xavier

(Por Demétrio Correia)

É muito surreal o Brasil.

Questiona-se uma coisa sem profundidade. Quando se chegam a certos problemas, há o recuo e a complacência.

No caso do "espiritismo" brasileiro, isto é ilustrativo.

Há pelo menos vinte anos, desde que se implantou a Internet no Brasil, as pessoas estão questionando a deturpação da Doutrina Espírita.

Existem até comunidades dedicadas a isso no Facebook.

Mas elas se tornam praticamente inócuas, porque a discussão sempre para no mesmo caminho.

Limitam-se a questionar apenas conteúdos de livros, apenas presos ao texto original de Allan Kardec.

Não vão adiante, analisando problemas tipicamente brasileiros.

A impressão que se tem é que se questiona apenas Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing e as traduções da FEB dos livros de Kardec.

Só isso.

Quando as questões avançam para analisar as irregularidades "mediúnicas", os contestadores de primeira viagem reagem e passam a apoiar os deturpadores.

"Não, a mediunidade que eles fazem é autêntica. Acho apenas que eles igrejificaram Kardec", dizem.

Se recusam a questionar até o "culto à personalidade" que os "médiuns" brasileiros recebem.

"Isso não faz sentido. Eles primam pela humildade, são pessoas bem simples", é o que tentam dizer.

Não. Pessoas simples são os aristocratas que trabalharam como médiuns nos tempos de Kardec.

Descontando os farsantes, os médiuns autênticos da França do século XIX eram mais humildes, porque recusavam o estrelato que os "médiuns" brasileiros aceitam com muita ambição.

Mas não se pode questionar os "médiuns" brasileiros, porque eles é que "são humildes", por conta de uma série de paradigmas que envolvem devoção, fantasia e paixões religiosas.

Paciência. Mesmo alguns dos críticos da deturpação espírita têm formação católica e estão saudosos dos tempos de muita fé religiosa, muitas fantasias dogmáticas, milagrosas etc.

E aí chegamos ao mito de Francisco Cândido Xavier, embora casos similares se observem em Divaldo Franco e João de Deus, entre outros.

Os críticos da deturpação espírita menos vigilantes não conseguem se desapegar dos deturpadores, "médiuns" marcados por uma suposta imagem de "amor e bondade" que parece agradável.

No sentido averso dos jornalistas reacionários, que transformam o ex-presidente Lula num "criminoso sem crime", os críticos falam da deturpação do Espiritismo como um "crime sem criminoso".

Tentam apelar pela falácia de que Chico Xavier deturpou a Doutrina Espírita "sem querer", por "acidente" ou "boa-fé".

Não se faz isso "sem querer", por "acidente" ou "boa-fé" durante décadas e mais de 400 livros.

Chico Xavier continuou deturpando o Espiritismo até depois de morrer José Herculano Pires, espírita que tentou, este sim, na boa-fé, chamar o grande deturpador para "conhecer melhor Kardec".

Os críticos da deturpação espírita pouco vigilantes até se incomodam com críticas mais aprofundadas ao beato de Pedro Leopoldo e Uberaba.

E acreditam que podem aproveitar o "médium" na recuperação das bases doutrinárias kardecianas.

Só não sabem como. E ficam descontando os aspectos mais evidentes de deturpação.

Desconsideram os livros de Emmanuel, associado e um jesuitismo ultraconservador.

Desconsideram, depois, os livros que levam os nomes de ilustres escritores mortos, por expressar similar igrejismo e fugir dos estilos originais dos autores atribuídos.

Desconsideram práticas de suposta materialização, até porque culminaram na farsa de Otília Diogo.

Desconsideram frases de Chico Xavier defendendo a ditadura militar.

Desconsideram mais outros, e outros, e outros aspectos das obras xavierianas.

Até verificarem o que sobrou do que seria aproveitável na recuperação das bases doutrinárias originais.

Simplesmente NADA.

Tentam argumentar que o que sobrou foi a "bondade extrema" do "médium".

Mas até isso é uma farsa construída pelo discurso hábil da grande mídia, sobretudo Rede Globo.

A tão festejada"caridade" de Chico Xavier nunca passou de uns lampejos de Ad Passiones e Assistencialismo.

Mas o Ad Passiones é uma falácia, que apela demais para a emoção, mas que vai contra a lógica, a coerência e o bom senso.

E o Assistencialismo é uma "caridade" que só ajuda em aspectos pontuais, sem transformar realmente a sociedade e só servindo para a promoção pessoal do "benfeitor".

Portanto, não há como aproveitar de Chico Xavier, ou Divaldo, João de Deus etc, num esforço para recuperar as bases espíritas originais.

A deturpação, portanto, é muito mais grave do que um mero igrejismo perdido em textos e traduções tendenciosas.

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