Defender a "bondade espírita" não quer dizer que alguém é realmente bom

(Por Demétrio Correia)

Muitos aceitam a deturpação da Doutrina Espírita no Brasil usando uma desculpa comum.

A de que o "espiritismo" brasileiro "pelo menos pratica a bondade".

O vazio doutrinário, já que o "espiritismo" brasileiro na prática se afastou de Allan Kardec, é aceito pelo aparato de "caridade" da religião brasileira.

As pessoas acham que, aceitando isso, se está aceitando a "bondade" na sua "verdadeira essência".

Pouco importam deslizes, deturpações, erros graves, se a "caridade" e o "amor" são (em tese) praticados.

Isso já não é bom, porque sabemos que não dá para ser desonesto ou errar demais "em nome da caridade" ou usar a aparente filantropia para abafar atos deploráveis.

O "espiritismo" brasileiro cometeu traições graves com Allan Kardec, que teve muito trabalho para desenvolver sua doutrina, enfrentando o repúdio de boa parte da sociedade de seu tempo.

Ele fez tudo isso para depois os brasileiros, pegando carona no prestígio do professor francês, distorcerem suas ideias ao sabor de seus caprichos e ambições.

Traíram e traem Kardec o tempo todo, mas fingem que o "respeitam rigorosamente" e ainda usam a "caridade" para abafar tais graves deslizes.

E os seguidores do "espiritismo"? Será que eles são realmente bons quando defendem que os deturpadores "valem pela caridade"?

Não. De jeito nenhum.

Quem defende os deturpadores do Espiritismo porque "pelo menos eles são bondosos" é gente que tem preguiça de ser boa por conta própria.

Gente que acha que "bondade" é fazer tudo que o algoz manda ou despejar roupa velha e imprestável para a "caridade".

Ou, em casos mais "nobres", dar sopinha para os pobres e doar mantimentos.

Coisas em princípio válidas - fora dar roupas em péssimo estado - , mas não muito transformadoras.

Temos que prestar atenção que muitos dos defensores do "espiritismo" e de seus "médiuns" são pessoas de elite, de classe média alta.

Elas reagem com certo repúdio aos assédios do povo pobre, e isso é notório.

Mas eles também ficam com raiva quando veem um governante como Luís Inácio Lula da Silva promover inclusão social, facilitando o acesso de negros e índios pobres para a Universidade e reativando escolas técnicas.

Acham que "caridade demais" é crime, e preferem ver ídolos religiosos ajudando muito pouco, mas dentro dos limites institucionais de uma "caridade" feita mais para impressionar as pessoas do que beneficiar os pobres.

A "bondade" acaba se limitando a um mero espetáculo.

Fora desse espetáculo, o que ultrapassar os limites institucionais da fé e ameaçar os privilégios da "boa sociedade", a caridade passa a ser vista como um "crime".

O Movimento dos Sem-Terra ajuda muito mais gente que Divaldo Franco e sua Mansão do Caminho.

Tem amplo treinamento profissional, educação questionadora, de maneira a formar trabalhadores rurais hábeis e conscientes de uma ampla gama de conhecimentos e uma visão de mundo crítica da realidade.

Mas, por ajudar mais gente, o MST é visto como "organização criminosa" pela "boa sociedade".

Porque o que o MST faz ameaça os privilégios abusivos de uma minoria de afortunados.

Daí que a "boa sociedade" prefere o dócil teatrinho da "caridade" da religião, sobretudo "espírita".

Uma "caridade" que ajuda pouca gente, não transforma a humanidade, não reduz significativamente a miséria, não faz uma comunidade se tornar definitivamente próspera e segura.

Mas é uma "caridade" que garante mais adoração, maior promoção pessoal ao "filantropo" de ocasião, causando festejos e aplausos em quantidade grande, mas inversa a dos benefícios realizados.

Em muitos casos, os mantimentos doados a uma população carente se esgotam pelo consumo de famílias tão numerosas.

Tudo isso acaba em duas ou três semanas. Mas a referida doação é comemorada em anos e anos, garantindo a promoção pessoal do ídolo religioso.

Daí que isso não é bom e defender essa "bondade" não é necessariamente ser bom. 

Pode-se esconder preconceitos sociais por trás disso e, além disso, as pessoas podem ver a religião como responsável de uma bondade que poucos se dispõem a realmente praticar.

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