A pirataria explica a falsa mediunidade

(Por Demétrio Correia)

Infelizmente, a mediunidade é uma atividade desmoralizada no Brasil.

Temos mais médiuns do que a lógica e a natureza da tarefa poderia nos sugerir, o que já causa muita estranheza.

Temos médiuns dotados de culto à personalidade, o que traz ainda muito mais estranheza.

E mais estranheza ainda são as mensagens supostamente espirituais que nos são trazidas, que sempre trazem algum ponto estranho à personalidade do morto a que se atribui autoria.

Mas a pessoas aceitam tudo por pelo menos dois aspectos.

Um é por causa das mensagens "positivas" e "consoladoras" que "nunca ofendem". Sendo mensagens sempre agradáveis, ninguém se dispõe a contestar.

Outro é a finalidade aparentemente filantrópica do suposto médium, que geralmente possui uma casa que abriga pobres e doentes e realiza projetos assistenciais. Se o trabalho é aparentemente feito pelo bem do próximo, também ninguém se dispõe a contestar.

Só que a fraude se é identificada pelo contraste que determinado detalhe, por mais sutil que seja, entrasse em conflito com os aspectos pessoais do morto em questão.

As pessoas veem autenticidade em supostas obras espirituais apenas pela semelhança que apresentam.

Se elas "lembram" o que o morto foi em vida, no entanto isso não é necessariamente seguro para garantir autenticidade e veracidade.

Vamos nos ater nos produtos piratas que se vendem no mercado clandestino e informal.

Na foto que ilustra esta postagem, extraída da Agência O Globo, vemos um tênis pirata.

Visto de longe, ele é "autêntico". Tênis Adidas, muito bonito por sinal.

Mas tem o logotipo da Nike na lateral. Outra marca.de tênis.

Se você for complacente, aceitará o logotipo da Nike como se fosse um adorno, não um conflito de identidade.

Costuma-se aceitar até ônibus com pintura padronizada, no qual diferentes empresas de ônibus se confundem com uma mesma pintura, com o risco de pegar o ônibus errado e tudo...

O que é identidade ou individualidade se o falso pode ser verdadeiro porque uma coisa pode ser outra completamente diferente?

A "Auta de Souza" que aparece nos livros de Francisco Cândido Xavier é "autêntica" até pela frustração de que a poetisa, precocemente falecida, por essa razão não lançou novos trabalhos.

Mesmo que os poemas "póstumos" lembrem mais o estilo pessoal de Chico Xavier, basta as mensagens "positivas" para se dar "autenticidade" à pseudo-Auta de Souza.

Foi fácil para Chico Xavier aliciar mãe e filho de Humberto de Campos depois que o julgamento do caso da usurpação do nome do falecido escritor terminou num empate com sabor de vitória (para o "médium").

Basta mostrar "coisas boas", mensagens "positivas" etc e, pronto. Mais fácil do que tirar pirulito de criança.

As semelhanças, então, bastam para os crédulos, mesmo quando as diferenças contradizem.

Nos produtos piratas, diferenças diversas denunciam as fraudes.

Os materiais menos resistentes, o caráter tosco do design, as trapalhadas eventuais na elaboração do logotipo ou, no caso do pseudo-Adidas, adornar com o logotipo de uma concorrente etc.

Na suposta psicografia, vemos diferenças das mais diversas.

No caso de Humberto de Campos, a "obra espiritual" não segue a narrativa fluente, ágil e descontraída dos textos que o autor publicou em vida.

Pelo contrário, as narrativas soam pesadas, deprimentes, cansativas, não raro os parágrafos aparecem longos demais.

O Humberto que esteve entre nós tinha uma escrita impecável, deliciosa, culta e bem escrita, mas de uma linguagem acessível.

O suposto espírito de Humberto era forçadamente culto, mas de uma escrita cheia de vícios de linguagem. Foram identificados cacófatos que o autor nunca seria capaz de escrever,

Só sendo devoto de Chico Xavier, ele mesmo tendo sido um beato CATÓLICO, para aceitar como "autêntica" a entediante literatura do suposto espírito "Humberto de Campos".

Abrindo mão de paixões religiosas, verá que as diferenças, gritantes, indicam fraude.

E não há "mensagem de amor" que salve qualquer fraude.

Não adianta os "espíritas" fingirem que concordam com Erasto se ignoram os seus mais preciosos conselhos.

Ele disse que os médiuns e espíritos levianos podem trazer, às vezes, "coisas boas", mas aconselha tomar o máximo de cautela diante disso, porque são armadilhas para veicular ideias traiçoeiras.

Não é para sair por aí se comovendo de lágrimas e louvando o impostor que traz "coisas boas".

Erasto também recomendou que seria mais válido recusar dez verdades do que aceitar uma única mentira.

Aceitou-se a mentira chamada Chico Xavier.

E tudo porque as fraudes "mediúnicas" foram aceitas pelas semelhanças.

Esquecemos de irregularidades que contradizem a natureza pessoal de cada morto atribuído.

Não nos lembramos dos produtos piratas que tanto são feitos para ficarem parecidos com os originais, e cujas diferenças gritantes os desmascaram.

É triste ver que as pessoas ainda choram quando os "médiuns" são desmascarados de suas fraudes.

O coitadismo ainda vai destruir o Brasil, a não ser que possamos reagir contra isso.

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