Estudar corretamente Kardec é um bom passo. Mas não o fim do caminho

(Por Demétrio Correia)

Muitos críticos da deturpação da Doutrina Espírita não vão adiante porque se limitam a uma única reivindicação.

A de compreender melhor os textos originais de Allan Kardec.

No Brasil, a tradução que mais está de acordo com os textos originais em francês são de José Herculano Pires e autores associados.

O volume O Que é o Espiritismo?, por exemplo, é recomendado pela tradução de Wallace Leal Rodrigues.

A Editora LAKE, embora não seja necessariamente comprometida com as bases originais, é a que edita as traduções mais honestas da obra kardeciana.

Ficar o tempo todo estudando Kardec é bom e bastante esclarecedor.

Mas não é suficiente.

Afinal, não adianta tirar de letra os postulados originais da Doutrina Espírita e consentir com outras práticas da deturpação.

Como dar algum crédito a supostos médiuns tomados de "culto à personalidade", como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.

Deixá-los de enfeite no panteão dos "grandes espíritas", mesmo depois de recuperar as bases doutrinárias originais.

Há gente que tem as traduções de Herculano Pires na ponta da língua.

Mas aceita a "mentiunidade" dos supostos médiuns porque estes "são bonzinhos".

Evita livros de Emmanuel, muito visado pelos críticos da deturpação.

Mas trata como legítimos os livros que levam o nome de Humberto de Campos mas que fogem completamente do estilo original do autor.

Aí precisa melhorar um pouco o hábito de leitura e ler os livros que Humberto de Campos havia lançado em vida.

Se lesse estes livros, veria a aberrante diferença que os supostos livros espirituais trouxeram.

Entender as distorções do "movimento espírita" requer vigilância absoluta.

Afinal, os deturpadores praticamente tomaram as rédeas da Doutrina Espírita hoje.

A carruagem foi tomada pelos assaltantes que dizem para onde deve ir o Espiritismo.

Dizem no achômetro, tanto o "acho" do juízo de valor quanto o "acho" da suposição, o que é o Espiritismo.

Botam Kardec para sustentar ideias que o próprio Kardec não sustentaria.

E esses "espíritas" usam a "filantropia" para se autenticarem e serem vistos como "rigorosos servidores" do pensamento de Kardec.

Vejam só.

Forjam "casas de caridade", com sopa dos pobres, alojamento e tudo, para legitimar fraudes.

Falsifica-se tudo, mas como é para o "pão dos pobres", o falso vira "verdadeiro".

E vamos dormir tranquilos diante dessa atroz deturpação da Doutrina Espírita.

Daí que ler os livros de Kardec, nos seus textos originais e nas traduções a eles fiéis, é fundamental, necessário e urgente.

Mas isso tem que ser visto como o ponto de partida. Até porque Kardec publicou sua obra para ser estudada, analisada e até contestada, mas nunca aceita de maneira cega ou imprudente.

Deve-se também contestar o pensamento de Kardec, mas não da forma irresponsável como se deu o "espiritismo" brasileiro, incluindo as trapaças doutrinárias de Chico Xavier, Divaldo Franco e afins.

Deve-se contestar Kardec à luz da Ciência e não ao escurinho da Igreja.

Devemos, acima de tudo, aproveitarmos o maior dom que a espécie humana ganhou da Natureza.

O ato de pensar.

Acreditar, apenas, atrofia a compreensão da realidade, corrompe e desencoraja o pensamento.

Conhecer, questionar e duvidar, no sentido de buscar motivos e provas, enriquece a mente e amplia a compreensão, corrigindo equívocos eventuais.

Allan Kardec, acima de tudo, nos convidou para o debate e não à fé em seus textos.

Kardec não tinha ainda a certeza da verdade absoluta, ele que lidava com algo muito novo que tentou compreender de maneira mais abrangente possível.

Ele queria a nossa ajuda, para aperfeiçoarmos o conhecimento espírita.

Muita gente, infelizmente, recusou tal tarefa, preferindo corromper o Espiritismo pelo igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing, raiz do "espiritismo" que temos no Brasil.

E, com isso, para reparar os erros cometidos pelo "movimento espírita", temos que ser vigilantes.

Compreender os textos de Kardec é a largada e não a linha de chegada.

O "espiritismo" causou estragos demais para que um mero entendimento de textos bastasse.

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