Somos "irmãos" ou somos "gado"?

(Por Demétrio Correia)

No "espiritismo" que deturpa o legado de Allan Kardec, há um apelo mais constante.

Um apelo aparentemente voltado à "fraternidade" e à "paz".

À primeira vista, muito bem intencionado.

Mas do modo como é feito, o apelo não resolve os conflitos existentes na natureza humana.

Basta o sofredor aguentar uma avalanche de desgraças e perdoar o algoz pelos seus abusos?

A pessoa é acuada e oprimida pelas circunstâncias nas quais ela perde o controle e ela tem que aguentar tudo com felicidade e esperança?

Os "espíritas" não sabem o que é uma pessoa sofrer demais e se tornar amargurada e rude por isso.

E a partir desses infortúnios a pessoa, sufocada em sua individualidade, cria preconceitos, neuroses, rejeições.

Responde aos infortúnios da pior forma, porque não conseguiu dominar as circunstâncias e afastar o mau agouro.

Os conflitos surgem porque pessoas são acuadas e aí não há apelo "fraterno" que dê jeito.

Porque a "fraternidade" alardeada pelos "espíritas" mais parece aquela "fraternidade" de banco de igreja.

Define-se assim porque, nas missas católicas, antes da oferenda da hóstia, o padre encerra seu sermão com uma oração de paz e as pessoas ao lado se cumprimentam dizendo "A paz de Cristo".

Ela não resolve divergências, conflitos e desigualdades existentes.

Mas os "espíritas" não ligam: individualidade lhes é frescura materialista, a ordem é viver a vida como as circunstâncias se impõem e pronto.

Nada de qualidade de vida ou demonstração de talentos peculiares.

A ideia é somente fazer um "teatrinho de superação", com muitas perdas, inclusive humanas, além de aguentar tutores ou patrões tirânicos ou medíocres, encarar enrascadas e ciladas.

Aqueles projetos pessoais tão bem esboçados pelo aprendizado da vida devem ser adiados. De preferência, para nunca mais.

Isso porque uma atividade perdida numa encarnação não será recuperada em outra.

As circunstâncias serão diferentes.

Por isso é que o desperdício de uma encarnação, que os "espíritas" definem como uma coisinha à toa, não deve ser menosprezado.

Oportunidades de progresso humano são perdidas quando os infortúnios são demais, o remédio da desilusão dado acima da dose necessária. Quase uma overdose.

Existem diferenças humanas nos desejos, hábitos, necessidades.

A ideia na vida na Terra não é ser bonzinho e alegre em si.

E logo os "espíritas", que dizem que "ninguém está aí para turismo", querem que o sofredor se comporte como um turista embasbacado, que sorri e cumprimenta a todos.

A vida é muito complexa e as individualidades existem não para serem banidas.

Cada pessoa tem sua personalidade.

Mas, para os "espíritas", o que interesse não é o indivíduo, mas a "massa".

Ou melhor, o "gado".

Todos indo numa mesma direção, alegres e de mãos dadas, uns sofrendo alegremente, outros cometendo abusos por "necessidade".

Por isso fica estranho tanto apelo à "fraternidade", a ideia de sermos "todos irmãos", que não resolvem os conflitos e até complicam as coisas.

Porque animosidades não se resolvem porque os conflituosos "são irmãos".

Ser "irmão", neste sentido, é aliás um jargão católico, e mais parece um eufemismo para discriminar a individualidade humana.

A partir desta ideia, você não é você, mas o "irmão do outro".

E você não tem seu caminho, mas caminha junto a uma multidão. Como num gado bovino.

Isso é muito perigoso, porque forçar uma "fraternidade" entre conflituosos nem sempre funciona.

Em muitos momentos, até os irrita.

O que se deve fazer é resolver conflitos e ver quem precisa necessariamente de alguma coisa e quem deveria ceder.

O que é muito diferente de apelar para o sofredor suportar desgraças com alegria enquanto o algoz recebe misericórdia pelos seus abusos graves.

Essa "conciliação de resultados", com o sofredor sofrendo e o algoz cometendo abusos, não se resolvem as injustiças humanas.

Elas apenas são postas debaixo do tapete, enquanto se força, ao sofredor, a resignação pela desgraça e se dá ao algoz a serenidade diante de seus abusos, apenas se faz-de-conta que os conflitos foram resolvidos.

As injustiças sociais continuam em pé e o que o "espiritismo" quis dizer, no discurso da "fraternidade", é para deixar essas injustiças para lá e todos sorrirem em suas situações correntes.

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